sábado, 25 de setembro de 2010
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Made in... where?
Como menino ávido pela massa do bolo, raspei a manhã toda um punhado de pensamentos que insistiam em me acompanhar, mesmo depois de verificar a sua importância para a concretude dos meus dias. Como não perceber que as roupas usadas já têm a forma do corpo e que não se pode desejá-las num outro caminho?
Qual mesmo o caminho que a distância não pode percorrer para encontrar um sorriso que brota da vontade de se estar perto? Sempre quis entender sobre a abstração sentimental. Nunca se entende a atuação cinematográfica que a realidade exprime. Eu gostei do Moulin Rouge.
Não leio bulas, não sigo ordens, não insisto, desisto, desejo, sou inteiro, prevejo, enfrento os medos, escrevo, escravo das letras, desabafo. E cometo pecados. Falo o que sinto. Ouço Djavan, agora Beirut. Sinto O Quereres tão dentro de mim. Quero Come what may. Tento o caminho inverso do romantismo trivial. As pessoas começam por estar perto.
Há muito medo nesse mundo de incertezas. Há muitas certezas batendo na porta do medo. Quase passei incólume pelos batimentos cardíacos acelerados, mas desejei um sorriso que os quilômetros de distância pareceram nada. Nunca quis passar incólume pela vida, tenho medo. O bom foi constatar o que foi bom. Bom é ver esvair o abstrato, já que não foi grande, nem forte, nem.
Embora ainda lembre dos textos que abraçaram o infinito, abraçaram o nada que, olhando para o poeta da distância, riu das dores que não chegaram e não causaram danos. Embora causasse aflição, quando o espaço existiu e o nada era a resposta que me dava nós. O nada fazia barulho no silêncio. Incomodava o tudo que há em mim.
A saudade, amiga íntima dos sentimentos desfeitos sem a explicação da química, física e da matemática, amiga íntima dos poetas distantes, calou-se quando lambuzei os dedos. Se as flores de plástico não morrem, as virtuais murcham, quando não regadas pela reciprocidade esperada. Ou encharcadas pelas águas da promessa.
Um alfinete espetou uma tristeza que ficava no caminho, a gente se despede das roupas usadas e elas deixam saudades. Elefantes lembravam a sensibilidade das músicas que tocavam numa trilha sonora que não marcara o encontro. Embora eu ainda os cace.
A massa do bolo estava deliciosa.
domingo, 6 de junho de 2010
Champanhe ou corda?

A inspiração acordou com o telefone, que estava carregando desligado. Olhou seus recados e pensou que não era nada mal comemorar com champanhe, nada de corda – as viagens, quando para dentro de si, recarregam as forças de se estar no salto todo tempo.
Lembrou da música que Ivan Lins desenha ao abrir a boca. E da coragem, que ela, mulher, sabe que é estar longe de casa, cuidando de tantos filhos! E da única filha, filosofia desconcertante para a idade. E ainda do carinho nada exaustivo do rabinho que balança quando desfaz a solidão própria dos paulistas. Embora já esteja há mais de vinte anos perto de si mesma e um dia se perca no caminho de volta.
Qual o caminho de volta quando a tristeza relembra que o natal não será mais o mesmo? Por que pensar assim? A força da vida é o amor, é a saudade à não-presença e quão presente ficará para sempre aquele que primeiro a ensinou a amar. O carinho deve tanger a tristeza, a depressão, as lágrimas sentidas e saber que a fortaleza que se carrega consigo é uma gota do oceano família. Ela não precisa fazer esforço algum para, nesse oceano, ser a estrela-do-mar.
É tanta sabedoria que inspira a vida, são tantos detalhes nas entrelinhas da literatura. Sua vida é uma história de vitórias. Aposto que ela gosta de Clarice Lispector, é sabido que a força é inerente à sua respiração. Das duas. Ora, um desconhecido potiguar a fez relembrar um momento difícil. As lágrimas não molharam um papel, mas desceram enquanto linhas subiam na sua frente e ela traçava uma personagem sofrida.
Torce pela glória, isso é natural dos seres humanos – ela já a possui, exposta involuntariamente pela beleza inebriante que um desconhecido ousou nomear. Pela beleza de ser tão humana. Seu nome confunde biólogos e exegetas bíblicos. Quer aprender a fotografar, mas sabe que os momentos estarão “para a posteridade” quando deliciados sem o quê de incômodo que a vida tenta impingir.
Nada de finais clichês, espera somente a continuidade de uma vida sossegada, “com sabor de fruta mordida”.
Peterson Nogueira
23Dez2008
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Novidades
A notícia de que o vigário da cidade morrera correu veloz por entre os cidadãos. Beatas, devotos e todos os cristãos ficaram instantaneamente sabendo do falecimento do padre, tão querido por todos. Logo se iniciaram os preparativos pro velório do bom homem. Os fiéis procuravam flores pra colocarem no esquife. A diocese local logo foi convocada a mandar o bispo para a missa em que se iria encomendar a Deus o corpo do velho padre.
Dentro da pequena igreja da pacata cidade, dava-se o velório. Muito choro, muitos cânticos e muita oração. As beatas, quase que uniformizadas, usavam saias, anáguas, blusas e véus pretos. Todas com discretos lenços a enxugar as lágrimas que corriam pela face. Os homens empunhavam chapéus e, no semblante triste de cada um, podia-se ver a gratidão pelo sacerdote.
Ainda na singular igreja, muitas homenagens foram prestadas. Mulheres traziam arranjos de flores, coroas e faixas para enfeitar o enterro. Quando enfim o ataúde saiu pela porta principal da igreja, os presentes encetaram um choro mais desesperado, angustiante. Todos se sentiam, de certa forma, órfãos pela perda do estimado padre.
Nas estreitas ruas por onde passava o cortejo fúnebre, viam-se mãos acenando um adeus ressentido, cheio de eterna saudade. Lenços dançavam no vento, presos a mãos que ostentavam consideração. Uma multidão vestida de negro caminhava rumo ao cemitério a fim de sepultarem o homem de Deus. Em cada rosto uma lágrima, em cada lágrima a confirmação da profunda tristeza. Quando já descido o caixão à cova, todos choravam e uns consolavam os outros já voltando pra suas casas.
Durante uma semana a morte do bom padre seria o assunto da pequena cidade, todavia ia ser assunto dividido com a chegada do novo sacerdote. O que na verdade mexia com cada morador era a novidade, coisa que raramente se sucedia naquela cidadezinha tão calma.
Peterson Nogueira
28Ago02
domingo, 18 de abril de 2010
Lembranças de chuva

Era um pouco mais da meia noite e a chuva caía torrencial naquele domingo que amanhecera tão quente. Tanta chuva lá fora, pensava, e eu dentro do quarto, ora a entreter-me com a leitura de poemas líricos, ora sendo atrapalhado pelos pingos de chuva que caíam fortes. Sem mesmo esperar, fui invadido por uma vontade de tomar banho na chuva que não cessava e me convidava a banhar em suas águas caudalosas. Não hesitei e incontinenti fui à rua com tal fim.
Como a água caía enérgica! Lavava a minha linda, imensa pequena cidade. Atravessei a rua já quase veneziana. Debaixo das biqueiras me pus a pular; é, lembrei de quando eu era pequeno, digo, de quando eu era menor – ou criança – nunca fui tão grande mesmo, eu sempre pulava na chuva, então foi impossível não entrar no trem veloz das lembranças que me levou à infância. Pulava, corria e brincava nessa mesma rua quase intacta durante todos esses anos. Fui andando nas calçadas e relembrado de tudo – ou quase tudo, minha mente gosta de esquecer algumas coisas, muitas coisas na verdade, – percebi casas que jamais alteraram a sua arquitetura, vi casas que se ergueram totalmente diferentes das que existiam antes, casas modeladas ou não, nada me impediu de voltar à tenra infância, infância feliz testemunhada por aquelas mesmas casas enraizadas para sempre na memória de minha vida e no chão caloroso da minha terra. Lembrei da queda na calçada alta de Dona Maria, a calçada já não me era tão alta e Dona Maria já se fora há tanto tempo! Lembrei da pedra, que era para não estar no meio do caminho, e não estava, mas que acertou em cheio a minha cabeça enquanto brincávamos, minha turma e eu, engenhosamente, de cabanas de escoteiro embaixo da janela intocável do Seu João que fazia questão de não alterar em nada a aparência da casa que um dia fora do seu pai. Fui à biqueira de Seu Gonzaga, a melhor da rua, a água caía macia, macia... Estava do mesmo jeito que antes! Cheguei a ouvir minha mãe mandando meus irmãos e eu tomarmos banho de chuva do lado de lá da rua porque “...do lado de lá não tem fios e com essa tempestade dá medo cair algum”. Que doce tempo! Fui andando até a esquina nessas reflexões saudosas do gênesis da minha vida, saudade de um tempo que plantou em mim o que hoje sou, de um tempo que o próprio tempo se encarregou de sucumbir. Infelizmente. A infância dá saudade, talvez pelo descompromisso, talvez pela liberdade, mas certo é que dá saudade.
Decidi voltar, quando olhei para a rua, contemplei uma cena linda: os pingos de chuva, que continuava reinando, caíam brilhantes, como se tivessem luz própria, as luzes que cercavam aquele horizonte davam uma cor rosada à cidade e, em contraste com a cor da noite pintavam em minha visão uma obra linda que, por maior talento que eu pudesse ter jamais conseguiria transmitir pra uma tela, ímpar beleza. A chuva tinha me presenteado aquela visão magnífica.
Depois de muitos minutos dando espaço a lembranças pueris sob a chuva rígida, entrei em casa, não sem antes me secar ainda na área. Mamãe tinha raiva quando entrávamos molhados da chuva dentro de casa. “Vai molhar toda a casa!”, repreendia rapidamente. Entrei no quarto e vi o livro que ainda não terminara de ler. As poesias ficarão para outra hora, pensei, porque agora quero e vou registrar minhas lembranças gostosas, saudosas, formosas, bondosas. Elas me deram vigor para a semana que se inicia, que chuva boa! Que boa noite a chuva trouxe! Que boas lembranças me trouxe a chuva!Enquanto escrevia, chovia e foi assim toda a madrugada.
Peterson Nogueira
28Mar05
domingo, 4 de abril de 2010
Gritos silenciosos

Olhando assim, parecia que a vida tinha sentido, embora ele não quisesse procurar o sentido, embora ele não quisesse ser sentido, nem sentir. O lenimento de suas forças era brusco. Há forças nos sumidouros e nem um pouco na consciência. Algumas poucas e minguadas lágrimas obedeciam à gravidade. E ele (sempre o desconcertante ele implodido) estava lá, enxugando-as. Um furacão sentimental explodia no insensível criado pela pós-modernidade. A explosão era abafada, inaudível. Gostaria de não saber das mazelas, dos cânceres, dos internamentos, dos médicos, nem de santos, nem de anjos.
Não saberia se despedir. Não gostaria de saber. Ia àquele ato tão familiar. Longe, distante, frio. Caçaria palavras para descrever suas sensações. Misteriosas. Augusto dos Anjos não saberia descrever o corpo em decúbito corroído por algum mal. Falavam em siglas. Deletérios sem fim. Um dia de sol. Ninguém lembrava a chuva matinal. O sol ousou e venceu o dia de São José. As pessoas enegrecidas circulavam-no involuntariamente. Sufocado, jogou os amores-perfeitos e procurou ar.
Algo bom desmistificaria o termo. Egípcios, cristãos, espíritas, compositores. Autores. Esperava por uma resposta. Do tempo. Ou do próprio fim. Vagueava pela necrópole e visitava residências de moradores anônimos. Ou apenas nomeados. Datados. Imaginava situações lúgubres. Queria mesmo era saber como foram parar ali. E onde estavam. Como estavam. Cresceu entre aqueles arquitetônicos espaços mínimos para deitar eternamente o bem e o mal.
Lembrava e ria. Ruborizava-se. Colerizava-se. Enfraquecia-se. Perdia o sentido oferecido pela vida. Tomado pela vida. Não conseguia não evadir-se da realidade. Esquecia e chorava.
Alguém o chamou para últimas palavras. Fez um discurso falso. Esqueceu-se propositadamente das Letras. Sentiu-se carpideira lesada pela falta de pagamento. Ouviu longe os aplausos que desferiam a morte com salves, vivas e outras entonações entusiasmadas. Todas hipócritas. Voltou o olhar para o horizonte de cruzes, mármores, anjos, santos e esquecimentos. E pessoas caminhando por espaços mal projetados, esgueirando-se pela vida. Escapou de alguns conhecidos desconhecidos, sentou-se num Carrara de um imberbe. Olhou-o profundamente, como quem conhecesse e sentisse falta. Sentiu-se carranca sempre de ótimo humor. O gosto de não ser sozinho durou pouco. E ali chorou a dor de sepultar o amor que tinha.
Peterson Nogueira
1º de abril de 2010
Uma mentira histórico-literária
quarta-feira, 31 de março de 2010
N O V A

Passou a juventude se preocupando com a velhice. Usava, todos os dias, vários produtos para o sonhado rejuvenescimento. Travava uma luta contra o poder da gravidade, insistindo para que ela não derrubasse a pele facial. Era o primeiro produto a massagear o rosto após o banho. Logo em seguida, tomava o rico café da manhã e, ato contínuo, escovava os dentes.
Ao chegar aos cinqüenta anos, gozava de plena saúde física, um pé-de-galinha sequer lhe incomodava os olhos, uma rugazinha que fosse não lhe ornava o rosto que desmentia a idade que tinha, mas nada impediu que a velhice lhe chegasse, em forma de raiz, bordando – parecia que diariamente – toda a sua boca.
Peterson Nogueira


19:46
Peterson Nogueira
